Hello Storybook
Leitura e desenvolvimento

Criar um leitor relutante: dar a volta ao "detesto ler"

Por The Hello Storybook Team · Pais, escritores e contadores de histórias8 de outubro de 20268 min de leitura
Uma criança inclina-se com curiosidade sobre um livro aberto que tem o seu próprio rosto na página, enquanto uma pilha de cadernos de exercícios simples e fechados fica afastada de lado.

Se tem um leitor relutante e o seu filho detesta ler, não está a falhar — e ele também não. "Detesto ler" quase nunca é a verdade toda. Por baixo há normalmente algo mais concreto: é difícil, é aborrecido, parece um teste, ou está a roubar tempo a algo mais divertido. A boa notícia é que cada um destes motivos tem uma solução diferente e viável. Este guia mostra-lhe como descobrir a razão verdadeira e dar a volta à situação — com calma, sem braço de ferro.

"Odeio ler" é um sintoma, não um diagnóstico

Raramente uma criança detesta o ato de perceber uma história. O que ela detesta é a sensação que a leitura lhe traz. Quando ler está associado a frustração, vergonha ou tédio, o cérebro arquiva a atividade inteira na pasta "evitar". A sua missão não é convencê-la de que não deve sentir o que sente — é descobrir que sensação é essa.

Vale a pena ouvir com atenção a diferença entre estas queixas, porque cada uma aponta para um problema diferente:

  • "É muito difícil, as palavras são enormes" — uma dificuldade de competência ou de descodificação.
  • "É uma seca" — um problema de conteúdo e de escolha.
  • "Não me apetece, quero é brincar" — uma questão de competição pelo tempo, muitas vezes agravada pelos ecrãs.
  • "Não sou bom nisto" — uma ferida na confiança, normalmente por ter sido corrigido vezes a mais.

Assim que percebe com qual delas está a lidar, deixa de atirar soluções ao calhas. Uma criança entediada não precisa de treinar leitura de sílabas. E uma criança que ainda luta para descodificar não precisa de livros mais interessantes que continua sem conseguir ler sozinha.

Será que o problema é mesmo a leitura?

Se ler for genuinamente difícil, nenhuma dose de entusiasmo vai transformar isso em diversão — é como pedir a alguém para apreciar uma caminhada com uma pedra dentro do sapato. Uma criança que gasta todas as forças a decifrar palavra a palavra não lhe sobra energia mental para aproveitar a história.

Faça um teste rápido em casa: dê ao seu filho uma página de um livro que, à partida, ele já deveria conseguir ler sozinho. Se ele falhar mais do que cerca de uma palavra em vinte, esse livro é demasiado difícil para leitura autónoma, sem mais voltas a dar. Isto não é falta de motivação. Baixe o nível de dificuldade sem comentar nada e observe o que acontece. Entretanto, pode ir trabalhando as competências de base através de rotinas tranquilas e sem pressão — os nossos guias sobre ensinar o seu filho a ler em casa e ensinar palavras frequentes em casa explicam tudo passo a passo.

A regra da pedra no sapato

Se um livro tiver mais do que meia dúzia de palavras que fazem tropeçar por página, é um livro para ler em voz alta consigo ou simplesmente um livro demasiado difícil — e não algo que a criança deva enfrentar sozinha à força. Guarde a leitura a solo para livros que lhe pareçam quase fáceis. A confiança cresce com pequenas vitórias.

Ler para aprender e ler por prazer não são a mesma coisa

Na escola, a leitura é muitas vezes uma avaliação disfarçada: lê isto, agora responde a estas perguntas, agora acerta. Se esta for a única relação que o seu filho tem com os livros, é natural que associe a leitura a pressão. A leitura em casa tem de ser precisamente o contrário — sem questionários, sem correções, sem aquele "o que é que esta palavra quer dizer?" a meio da frase.

Durante algum tempo, deixe que os livros sejam só diversão. Não teste a compreensão. Não corrija cada palavra mal lida. Se ele disser "casa" em vez de "caça", deixe passar, a não ser que o sentido se perca por completo. O seu silêncio diz-lhe o mais importante: aqui, ler é seguro.

Deixe-os escolher — mesmo que a escolha lhe pareça um horror

As crianças que resistem à leitura ganham vida assim que lhes damos o poder de decidir. Banda desenhada, romances gráficos, livros de piadas, livros de curiosidades sobre tubarões, camiões ou factos nojentos, o mesmo livro pela quadragésima vez — tudo isto conta. Ler é ler. Uma criança que devora um livro do Dog Man está a ler muito mais palavras do que uma que arrasta os pés, infeliz, por um livro de capítulos "a sério".

Siga a obsessão do momento. Se o seu filho adora dinossauros, compre-lhe a enciclopédia dos dinossauros. Se vive agarrado a um videojogo, é bem provável que exista um livro sobre esse jogo. O interesse é o motor mais poderoso que tem à mão, por isso deixe de lutar contra ele e comece a alimentá-lo. Também ajuda muito escolher livros que combinem o interesse com o nível de leitura — o nosso artigo sobre como escolher um livro infantil por idade pode ajudá-la a acertar na mira.

Continue a ler em voz alta, mesmo quando achar que já não é preciso

Ler em voz alta a uma criança que resiste à leitura não é tratá-la como um bebé — é manter a porta aberta. Quando é você a ler, ela recebe toda a alegria da história sem nenhum do esforço de decifrar as palavras. Fica com a memória de que os livros são bons. Muitos pais deixam de ler em voz alta assim que a criança já consegue ler sozinha, do ponto de vista técnico — e isso é precisamente o contrário do que convém a uma criança que já anda morna com a leitura.

Transforme este momento num ritual, não numa obrigação: o mesmo cantinho aconchegante, a mesma hora, a sua atenção por inteiro. Se quiser que a hora da história passe a ser algo pelo qual ela ansia, reunimos as nossas melhores dicas de leitura em voz alta que transformam a hora da história num ritual. Pare num momento de suspense. Faça as vozes. Deixe-a virar as páginas.

“A criança a quem se lê torna-se o adulto que lê. A fluência constrói-se; o gosto pela leitura apanha-se.”

— Um pensamento para ter por perto nos dias difíceis

Peça menos e vá somando pequenas vitórias

Se "vai ler" soa como escalar uma montanha, transforme essa montanha num pequeno monte. Dez minutos. Uma página lida por si, outra por ela. Uma única banda desenhada. Neste momento, o objectivo não é ganhar resistência para ler durante muito tempo — é reconstruir a ligação entre os livros e as boas sensações. O tempo aumenta-se mais tarde, quando o receio já tiver passado.

  1. Comece com livros bem abaixo do nível que a frustra, para que cada página seja uma vitória.
  2. Leiam à vez, para que não tenha de carregar sozinha com todo o peso.
  3. Garanta dez minutos tranquilos e sem ecrãs, em vez de exigir uma sessão longa.
  4. Reconheça o esforço em voz alta — "descobriste aquela palavra toda sozinha" — e não apenas o acerto.
  5. Pare enquanto ela ainda quer mais, para que a última sensação seja vontade e não alívio.

Se os ecrãs são a grande concorrência, não precisa de os proibir — basta oferecer alternativas genuinamente apelativas. Reunimos atividades sem ecrãs que fazem nascer o gosto pela leitura que tornam os livros a opção divertida em vez da imposta.

Transforme o seu filho no protagonista da história

Às vezes, a forma mais rápida de contornar o "detesto ler" é tornar a leitura pessoal. Uma criança que não pega num livro ilustrado qualquer costuma deixar-se envolver quando o herói da história tem o seu nome, a sua cara e vive as suas aventuras — porque, de repente, o livro é sobre ela, e aquilo que está em jogo passa a parecer real.

É aqui que um livro personalizado com o seu filho como protagonista pode mudar discretamente o ambiente. Quando é a criança a corajosa, a engraçada, a que salva o dia, passa a ter um motivo para virar a página — e reler a sua própria história vezes sem conta é precisamente aquele tipo de prática sem pressão e muito repetida que desenvolve a fluência sem parecer trabalho. Pode espreitar alguns exemplos de livros personalizados para ver como funciona na prática.

Pense a longo prazo e vigie as suas próprias reacções

Transformar uma criança que resiste à leitura mede-se em meses, não em dias. E a coisa mais importante que está nas suas mãos é a temperatura emocional da situação. Suspirar, corrigir, subornar e comparar — tudo isto ensina à criança que a leitura é algo em que ela está a falhar. A calma, a paciência e o prazer genuíno de partilhar um livro ensinam exactamente o contrário.

Mantenha os livros à vista e ao alcance, continue a ler em voz alta, tire a pressão de cima e deixe que sejam eles a escolher. As crianças mudam. Aquela que detesta ler aos seis anos é, muitas vezes, a mesma de quem aos nove não consegue tirar um livro das mãos — mas só se os primeiros anos não a tiverem convencido de que "não é de ler".

Pontos principais

  • "Detesto ler" é um sintoma — perceba se é falta de competência, tédio, pressão ou concorrência antes de escolher a solução.
  • Descarte primeiro a dificuldade: se um livro é difícil demais para ler sozinho, leia-o em voz alta em vez de transformar isso numa luta.
  • Deixe o seu filho escolher o que lê e continue a ler-lhe em voz alta muito depois de ele já saber ler sozinho.
  • Mantenha a temperatura emocional calma; uma história pessoal e sem pressão que a criança adora reler alimenta ao mesmo tempo o prazer e a fluência.

Perguntas frequentes

Porque é que o meu filho diz que detesta ler?+

Normalmente "detesto ler" significa algo mais específico: os livros são difíceis demais de descodificar, o conteúdo aborrece-o, a leitura parece um teste, ou está a competir com atividades mais divertidas. Cada causa tem uma solução diferente, por isso ouça com atenção para perceber com qual está a lidar antes de mudar o que quer que seja.

Devo obrigar um leitor relutante a ler todos os dias?+

Sim, mas mantenha curtinho e sem pressão — até dez minutos contam. Para um leitor relutante, o objetivo no início é reconstruir boas sensações em torno dos livros, não a resistência. Use livros fáceis, leiam à vez, deixe de lado o interrogatório sobre o que entendeu, e pare enquanto ele ainda quer mais.

As banda desenhada e as novelas gráficas contam como leitura a sério?+

Sem dúvida. Banda desenhada, novelas gráficas, livros de anedotas e não-ficção sobre um tema favorito constroem vocabulário, fluência e gosto pela leitura. Para um leitor relutante, deixá-lo escolher formatos de que gosta vale muito mais do que impor livros "a sério" que ele detesta.

Escrito por The Hello Storybook Team, Pais, escritores e contadores de histórias.

← Todas as histórias
✦ Clube das histórias

Gostou? Receba a próxima.

Subscreva para receber novas ideias de leitura em voz alta, textos acolhedores sobre parentalidade e acesso antecipado exclusivo aos novos temas. Cerca de dois e-mails por mês, nunca mais do que isso.

Ideias de histórias e acesso antecipado, grátis. Sem spam — cancele quando quiser.

A sua criança, protagonista da própria história.

Envie uma fotografia, crie o livro em minutos e guarde-o em digital ou como recordação impressa.

Criar o livro →